Blogue de opinião e divulgação.
Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
O outro lado da discussão?

 A guerra financeira contra a Islândia

 Apesar de ter passado o último meio século concentrado a estudar os países com problemas de balança de pagamentos, mesmo eu acho chocante o singularmente auto-destrutivo regime financeiro da Islândia. Antes que rejeite a minha candura, devo apresentar um curriculum pessoal resumido para que entenda que as minhas conclusões são baseadas principalmente em ter sido um iniciado no jogo da pilhagem de países em estilo imperial durante quarenta anos. Nos meados da década de 1960 eu era o economista de balanças de pagamentos do Chase Manhattan Bank, a seguir da Arthur Anderson e posteriormente do United Nations Institute for Training and Research (UNITAR). Tenho ensinado teoria económica internacional em nível de graduação desde 1969 e agora dirijo um grupo internacional de história económica e financeira com base em Harvard. Em 1990, na Scudder Stevens and Clark, organizei o primeiro fundo de dívida soberana. Todos estes trabalhos envolveram analisar a limitada capacidade de países devedores para pagar – quando podia ser deles extraído através de empréstimos em divisas estrangeiros e quanta infraestrutura pública estava disponível para ser liquidada num processo voluntário de arrestos virtuais por países desejosos de se submeterem às regras ditadas pelo credor.

Escrevi primeiramente acerca do imperialismo monetário na década de 1970 no meu livro Super Imperialism. Ele deveria ter-se intitulado "Imperialismo monetário" porque pormenorizava como a substituição do ouro por papéis de dólar IOUs ( I owe you, notas de reconhecimento de dívida) no comércio e nos défices de balanças de pagamentos, em 1971, permitiu aos Estados Unidos explorarem o resto do mundo sem limites. Reduzindo gradualmente os pagamentos em ouro entre bancos centrais em favor de dinheiro fiduciário de papel permitiu ao Estados Unidos acumularem dívidas maciças iguais aos seus défices acumulados de pagamentos, muito além da sua capacidade de pagar. Os EUA actualmente devem mais de US$4 milhões de milhões (trillion), enquanto mantém um défice comercial crónico com enormes gastos militares além-mar, financiados inteiramente por outros países através dos seus bancos centrais. Isto é chamado eufemisticamente de "sistema monetário internacional".

Também fui conselheiro do governo canadiano na década de 1970. O meu principal trabalho foi escrever uma monografia a explicar porque os países não deveriam contrair empréstimos em divisas estrangeiras, mas deveriam sim monetizar o seu próprio crédito para gastos internos e investimento. Em anos recentes ensinei na Letónia e dei este mesmo conselho aos seus responsáveis. Apresento estes antecedentes porque têm óbvia relevância para a situação financeira da Islândia de hoje. Ela rompeu a regra essencial das finanças internacionais: Nunca assumir empréstimo numa divisa estrangeira para o crédito que se pode criar livremente no plano interno. Os governos podem expandir a sua saída da dívida interna – mas não da dívida externa. Isto constitui grande parte do problema agora enfrentado pela Islândia.

O ponto principal dos meus comentários centrar-se-á portanto na dimensão internacional do problema da dívida da Islândia, especialmente nas suas relações com a Europa. Assim, é relevante olhar para o que está a acontecer na "Europa expandida" de hoje. Como tem relatado a imprensa financeira, as economias pós-soviéticas depararam-se com resultados desastrosos depois de se terem movimentado na década passada para aderir à União Europeia. Os recentes tumultos de devedores, agricultores e membros de sindicatos desde os países bálticos até à Hungria são sintomáticos das profundas desgraças económicas que afligem estes países. Está a crescer o ressentimento de que ao invés de ajudá-los a industrializarem-se e tornarem-se mais eficientes, a Europa e o seu Tratado de Lisboa simplesmente transferiu o assunto para os seus banqueiros, os quais olham para estes países simplesmente como clientes de crédito a serem sobrecarregados com dívida – não para empréstimos para construir manufacturas e a infraestrutura urgentemente necessária a estes países, mas empréstimos principalmente contra o imobiliário existente e a infraestrutura colateral já no lugar. Isto é o caminho mais rápido para fazer dinheiro, afinal de contas – e as finanças tradicionalmente têm vivido no curto prazo.

Este problema era obrigado a levantar-se, dada a fé pós-industrial da Europa de que quaisquer aumentos de "riqueza" – mesmo pelo truque de inchar o imobiliário e os preços de outros activos – é tão produtivo como construir nova capacidade industrial e infraestrutura. O resultado desta ideologia foi um conjunto de bolhas económicas construídas sobre imobiliário financiado por dívidas e inflação do mercado de acções. Tais bolhas sempre explodem em algum momento. Só tardiamente os países estão a redescobrir o axioma clássico de que o único caminho para pagar importações numa base sustentável é produzir exportações.

Infelizmente, nem os bancos estrangeiros nem os conselheiros europeus estimularam isto. A sua política desindustrializou o países pós-soviéticos, os quais financiaram o aprofundamento dos défices comerciais contraindo empréstimos em divisas estrangeiras contra o seu património imobiliário. Os Estados bálticos tomaram empréstimos em euros, libras esterlinas e francos suíços, principalmente de bancos suecos, para financiar uma bolha imobiliária, ao passo que a Hungria e os seus vizinhos da Europa Central se endividaram pesadamente junto a bancos austríacos. As suas economias estão a contrair-se agora que o jogo de casino sobre a inflação dos preços dos activos explodiu. O rendimento locativo e portanto os preços da propriedade estão a afundar e as taxas de câmbio fazem o mesmo. Isto torna o custo de uma hipoteca em divisa estrangeira maior do que o rendimento da propriedade local. O resultado é o incumprimento generalizado de hipotecas, provocando perdas severas para bancos suecos e austríacos.

As dívidas podres do imobiliário também estão a destruir bancos nos dois principais países credores, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. Os preços imobiliários, os preços das acções e o emprego estão indo abaixo numa linha recta sem precedentes mesmo na Grande Depressão dos anos 1930. Isto tornou um pesadelo o sonho financeiro neoliberal de "criar riqueza" pela inflação de preços de activos, através da criação de crédito, sem realmente aumentar a formação de capital tangível (salários e padrões de vida). Assim como indivíduos não podem viver de cartões de crédito para sempre, tão pouco os países o podem. Como sabe qualquer economista clássico, sociedades que apenas manufacturam dívida são insustentáveis. Os casinos podem ser lugares divertidos para visitar (os clientes pagam ao perderem o seu dinheiro), mas não lugares para viver. Isso também é verdade para as economias de casino.
 
 

 



publicado por codigo430 às 12:07
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