Blogue de opinião e divulgação.
Quinta-feira, 7 de Maio de 2009
A Islândia pode ser pioneira

 A guerra financeira contra a Islândia

Isto não é evidentemente algo que a Islândia possa permitir-se. De facto, os Estados Unidos tão pouco podem permitir-se, pois tanto imobiliário já afundou na situação líquida negativa que os bancos não estão desejosos de emprestar em caso algum. Felizmente, a situação da Islândia é tão extrema que pode ser salva mesmo do pensamento de criar ainda nova dívida. Ela pode enfrentar o problema financeiro e começar a reduzir a sobrecarga de dívida, de modo a alinhá-la com a capacidade da economia para pagar ou em muitos casos simplesmente cancelá-la totalmente.

Primeiro, a Islândia precisar efectuar um recenseamento da grandeza das dívidas internas e externas, e das instituições à quais as mesmas são devidas. Segundo, precisa avaliar a capacidade da economia para pagar estas dívidas. Este foi o princípio sobre o qual os países credores do mundo fundaram o Bank for International Settlements, em 1931, para avaliar a capacidade da Alemanha de pagar. Deve ser feita referência tanto à magnitude da dívida em relação às tendências de preços correntes para o colateral que supostamente apoia esta dívida e para a capacidade da economia de produzir um excedente em divisas internas e em divisas estrangeiras sobre e acima das necessidades básicas, incluindo renovação de capital para crescer a taxas históricas ao longo do tempo.

Ao insistir numa análise financeira plenamente transparente de quem deve quando a quem, a Islândia pode lançar a bola de volta ao campo dos credores e pedir aos banqueiros que expliquem exactamente como propõem que a Islândia deveria pagar – e o que eles prevêem que venha a ser o efeito de tal pagamento sobre a economia em termos amplos. Quanto pode a Islândia permitir-se pagar nos próximos poucos anos sem perder o seu lar democrático e os padrões de propriedade e sem abandonar as suas políticas públicas social-democratas? Como pode a Islândia pagar as suas dívidas sem entrar em bancarrota, abandonar a sua social-democracia e polarizar a sua população até agora homogénea entre uma minúscula oligarquia credora e o resto da população? A ilha está em perigo de criar uma nova classe dirigente que controlará o seu destino durante o próximo século. Mais uma vez, Adam Smith advertiu que oligarquias financeiras actuam com a preocupação apenas de quanto podem extrair, não do que podem produzir. Eles não são bons planeadores do futuro e não actuam responsavelmente porque para credores é mais fácil despojar activos do que criar novo capital.

Ao tomar esta posição a Islândia estará simplesmente a seguir a filosofia moral estabelecida por todas as principais religiões e todo o corpo de legislação antiga e moderna tem como princípio nuclear: a ideia de que o crédito deve ser mantido dentro da capacidade de pagar. É bastante óbvio que os prestamistas globais estenderam crédito muito além da capacidade da Islândia para pagar. Durante mais de dois séculos os Estados Unidos mantiveram uma excelente tradição sobre como tratar deste problema. Já no período colonial o estado de Nova York aprovou a lei Fraudulent Conveyance, a qual permaneceu sempre nos livros desde que Nova York aderiu à nova nação. O problema enfrentado eram credores e especuladores britânicos que vinham ao Norte do estado de Nova York para trapacear agricultores locais retirando-os das suas terras ricas e bem situadas. O estratagema era oferecer um empréstimo a um agricultor necessitado e então pedi-lo pouco antes do tempo da colheita quando ao devedor faltava o dinheiro para pagar. Alternativamente, o especulador podia simplesmente emprestar mais do que o agricultor podia permitir-se pagar mesmo sob condições normais. Assim, Nova York bloqueou esta prática predatória aprovando uma lei dizendo que se um banco ou outro credor fizessem um empréstimo sem saber exactamente como o devedor iria reembolsá-lo, o empréstimo seria declarado nulo e sem efeito. Ele seria eliminado dos livros contabilísticos.

Esta lei despertou considerável atenção na década de 1980 quando Drexel Burnham e seus imitadores começaram a fornecer títulos-livro a crédito para atacantes corporativos. As companhias defenderam-se destacando que o único meio com que estes títulos de altos juros podiam ser pagos era desmanchando a companhia alvo e reduzindo a sua força de trabalho. Mas, acima de tudo, a lei tem relevância internacional. A maior parte dos consórcios bancários dos EUA tem um banco na Cidade de Nova York a negociar com governos do Terceiro Mundo e outros prestamistas estrangeiros. Até então, nenhum destes devedores procurou anular os seus empréstimos na base de que o único meio com que poderiam pagar seria vender as suas empresas públicas e activos governamentais. Mas a legislação que o permite está ali e proporciona um modelo excelente para a Islândia imitar. Prosseguindo esta política a Islândia alcançaria a espécie de liberdade económica definida pelos economistas clássicos – um mercado livre de encargos indirectos tecnologicamente desnecessários, direccionada para a extracção do excedente por uma oligarquia de interesses.

Para os interesses financeiros, em contraste, a sua ideia de mercado livre é aquele que os deixa livres para fazerem o planeamento económico "livre" da regulação do governo e do constrangimento democrático sobre as suas práticas extractivas, de crédito predatório e de arresto. Em toda a parte onde eles ganharam domínio contraíram as economias. Desde a década de 1960 os seus procuradores no FMI e no Banco Mundial impuseram programas de austeridade a países do Terceiro Mundo, concedendo empréstimos em divisas externas cujo efeito tem sido tornar estes países mais dependentes e conduzi-los ainda mais profundamente ao endividamento. Nas economias pós-soviéticas a partir de 1991, os estrategistas financeiros concentraram-se em intrometerem-se nas empresas públicas, vendendo-as ou utilizando-as como colateral para empréstimos. O resultado da "financiarização" destas economias foi proporcionar um campo livre para interesses predatórios em aliança com globalizadas oligarquias financeiras internas. Em suma, o modelo neoliberal vitimiza devedores, impedindo-os de pagarem as suas dívidas. Ao invés de financiar formação de novo capital ele despoja economias dos seus activos e esvazia-as. Finalmente, isto arrasta a próprias economias credoras, como se verificou na Roma antiga, na Espanha medieval e nos Estados e Grã-Bretanha na Grande Depressão (sem mencionar a que está a desdobrar-se hoje).

A Islândia está a enfrentar uma grossa armação fraudulenta. Deveria ela sentir-se obrigar a pagar a países que não têm sequer intenção de pagar as suas próprias dívidas? Para obter pagamento, os credores devem convencer a sua presa a aceitar a falsidade de que dívidas poderiam e na verdade deveriam ser pagas. A mentira é que elas possam ser pagas sem desmantelamento da social-democracia, a venda do domínio público e a polarização da sociedade entre credores e devedores.

O ponto de referência deveria ser o quadro vasto a longo prazo da Islândia – o da sobrevivência da economia e das perspectivas de crescimento para o futuro. Empréstimos em divisas externas deveriam ser denominados em divisa interna na redução (e desindexados) das taxas de juros, ou repudiados totalmente. O princípio guia deveria ser anular dívidas assumidas em termos destrutivos e extractivos.

Quanto aos elementos importantes do negociar uma resolução para a crise da dívida da Islândia, o país precisa reestruturar os termos do debate removendo suposições fictícias que não têm base na realidade. O primeiro obstáculo mental é a suposição de que a Islândia precisa negociar de um modo que ganhe a aprovação dos credores num compromisso. Não é possível alcançar qualquer acordo razoável por esse caminho. Qualquer negociação entre credores e devedores é antagónica, e os credores passaram muitas décadas a refinar truques de relações públicas demagógicas para desviar a atenção para abstracções acerca da "correcção". Um estratagema típico é perguntar se é justo para alguns devedores receberem maiores cancelamentos do que outros. Será justo para a maior parte dos indivíduos altamente endividados ganharem o máximo – mais do que pessoas que foram mais responsáveis? O objectivo aqui é inflamar o ressentimento popular de que alguns devedores obterão um maior cancelamento do que outros (e alguns devedores são na verdade tão culpados quanto os perpetradores que lhes venderam a ideia de que preços de casas apenas sobem), de modo a culpar o pobre e a maior parte dos altamente endividados ao invés dos credores imprudentes.

A questão real é a saúde da economia geral. As partes que procuram o máximo não são os indivíduos mais endividados e sim os maiores credores. O seu objectivo é aumentar o seu domínio sobre o resto da sociedade. Acima de tudo, o seu objectivo é maximizar o poder da dívida sobre o trabalho. Quanto pior a economia comportar-se, mais forte ficará a posição do credor. Isto é uma receita para o suicídio económico que conduzirá à escravidão pela dívida quando a depressão interna intensificar-se. Credores por toda a parte no mundo estão a reduzir os seus direitos por pagamentos a fim de reflectir o afundamento nos valores da propriedade. A Islândia tem uma oportunidade para tornar-se um caso modelo teste de justiça económica. Que momento melhor para anunciar o princípio básico do que está a ser salvo – um fardo de dívida insuportável que deve entrar em colapso no fim ou uma sobrevivência da sociedade? Será que o governo defende os seus cidadãos dos predadores financeiros, ou virará a economia sobre eles? Esta é a questão.
 
Michael Hudson - Professor de Teoria Económica na Universidade de Missouri – Kansas City, autor de Super Imperialism: The Origin and Fundamentals of U.S. World Dominance , mh@michael-hudson.com .

The CRG grants permission to cross-post original Global Research articles on community internet sites as long as the text & title are not modified. The source and the author's copyright must be displayed. For publication of Global Research articles in print or other forms including commercial internet sites, contact: crgeditor@yahoo.com
© Copyright Michael Hudson, Global Research, 2009


O original encontra-se em http://www.globalresearch.ca/index.php?context=va&aid=13055 .
Tradução de JF.


Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ .
 


publicado por codigo430 às 00:00
link do post | comentar | favorito
|

Euro vs US Dollar
[Most Recent Exchange Rate from www.kitco.com]
Siouxsie And The Banshees - Dear Prudence
Coldplay - Paradise (Official)
Peter Gabriel - Games Without Frontiers
Je suis un homme - zazie
Vídeos
posts recentes

Fontes do Crescimento Eco...

El duro discurso de Marth...

¿Por qué el 'padre del iP...

A história de um Chef que...

Trabalho de pesquisa

Estatísticas do Turismo

Estrelas

Organizações Mundiais

Pent

Prova de Economia

links
tags

vídeos

opinião

cidadania

crise

democracia

economia

avaliação

globalização

humor

informação

outros temas

professores

actividades

música

enriquecimento

ambiente

sociologia

recursos

tve2

eua

informação vídeos

rtp

gripe

militarismo

videos

estudos

ensino

alunos

sic

estatísticas

escola

europeias

visitas de estudo

agricultura

poesia

fenprof

tvi

china

video

fome

divulgação

saramago

cef

iraque

profissional

vídeos tve2

galeano

leap

manifestações

pobreza informação

teoria

tve1

espinho

petróleo

técnico de secretariado

turismo

dia mundial

guerra

honduras

rosa

brasil

coltan

cultura

democracy

emigração

informação tve2

jn

laranjeira

outros temas vídeos

porto

sindicatos

colóquios

desigualdade

direito

economia tve2

estado

expresso

frases

galbraith

galeano tve2

gripe vídeos

obama

ocde

palestina

pedagogia

pobreza

privado

público

redes sociais

rt

técnico de comércio visitas de estudo

afeganistão

água informação vídeos

bbc

cgtp

chossudovsky

educação

fne

irão

manuel freire

todas as tags

Dívida Pública Mundial e por país

Tocar na imagem!
Outubro 2016
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30
31


pesquisar
 
subscrever feeds
arquivos

Outubro 2016

Dezembro 2015

Setembro 2015

Dezembro 2014

Novembro 2014

Outubro 2014

Setembro 2014

Agosto 2014

Junho 2014

Maio 2014

Abril 2014

Março 2014

Janeiro 2014

Novembro 2013

Outubro 2013

Setembro 2013

Agosto 2013

Novembro 2012

Outubro 2012

Setembro 2012

Julho 2012

Maio 2012

Abril 2012

Março 2012

Fevereiro 2012

Janeiro 2012

Dezembro 2011

Novembro 2011

Outubro 2011

Setembro 2011

Julho 2011

Maio 2011

Abril 2011

Março 2011

Fevereiro 2011

Janeiro 2011

Dezembro 2010

Novembro 2010

Outubro 2010

Setembro 2010

Dezembro 2009

Novembro 2009

Outubro 2009

Setembro 2009

Agosto 2009

Julho 2009

Junho 2009

Maio 2009

Abril 2009

Março 2009

Fevereiro 2009

Janeiro 2009

Dezembro 2008

Novembro 2008

Outubro 2008

Setembro 2008

Agosto 2008

Julho 2008

Junho 2008

Maio 2008

Abril 2008

Março 2008

Fevereiro 2008

Janeiro 2008

Dezembro 2007

Novembro 2007

Outubro 2007

Setembro 2007

Agosto 2007

Julho 2007

Junho 2007

Maio 2007

Abril 2007

Março 2007

Fevereiro 2007

Janeiro 2007

Dezembro 2006

Novembro 2006

Outubro 2006

Setembro 2006

Maio 2006